terça-feira, 3 de maio de 2011

Ao seu adeus,

Postado por Djessyka às 18:27 0 comentários
No momento em que o homem entrou no ônibus, o cheiro de bebida forte impregnou nos narizes dos passageiros mais próximos. Estava completamente bêbado. Fazia frio.
Tirou do bolso uma nota com valor alto demais para que houvesse troco, a cobradora recusou e o homem insistiu sem sucesso.
Primeiro, uma garota ofereceu-se para pagar-lhe a passagem, recusou. "Tenho dinheiro"- Disse. Procurou nos bolsos de seu casaco notas com valores menores. Não encontrou. Os passageiros miravam-lhe com os olhos como se fosse algum criminoso, um doente, um assassino.
Depois, a senhora de cabelos tingidos. "Perdi meu filho mais velho" foram as palavras que ela ouviu saindo pela boca do bêbado. A mulher contou trocados e pagou-lhe a passagem. Pediram pra que o homem se sentasse em um lugar que sobrava, lágrimas saíam sem parar de seus olhos. Ele havia perdido um filho.
Os olhares curiosos dentro do ônibus pareciam machucá-lo, mas não mais do que a dor que já rasgava-lhe o peito. Os comentários que discriminavam a figura e não entendiam suas lágrimas, eram lançados de um lado para outro e alguns acertavam em cheio o pobre homem.

Contar-lhe-ei a noite de ontem:
*às oito horas da noite criminosos entraram em uma casa, roubaram o que puderam e mataram o homem que esperava pela esposa.
*às nove e quinze a esposa chega em casa e encontra o marido morto.
*Onze horas da noite a maioria dos parentes e amigos é avisada.
*Um pai passa a noite em claro e chora.

domingo, 1 de maio de 2011

Postado por Djessyka às 14:54 1 comentários
Atravessei a rua.
Na cozinha simples da recém viúva, uma mesa grande abraçava seis crianças, a mulher ocupava um espaço entre duas das crianças e, com a Bíblia aberta, lia algumas passagens marcadas. Quando viram que eu havia entrado, pararam com a leitura, mas não por muito tempo: Pedi que continuassem.
Primeiro ela leu o Sermão da Montanha, sim Gandhi, podem desaparecer da face da terra todos os documentos escritos desde que nos sobre este, somente com este em mãos, ainda saberemos o que fazer com o mundo. Leu também uma Parábola e o Salmo 23, que, conforme ela lia, eu repetia mentalmente as palavras já conhecidas. Fechei os olhos enquanto uma das crianças rezava, e pedia, no emaranhado de palavras infantis, que o ano que estava por nascer viesse com mais alegria. Alegria! Eu também queria alegria.
Ofereceram-me um prato de lentilhas. Não tive vontade, mas aceitei. Sentei entre as crianças e comi uma pequena quantidade. Alguém chamou meu nome do lado de fora, tive que ir.

terça-feira, 19 de abril de 2011

(in)suportável

Postado por Djessyka às 06:50 0 comentários
Lunática como sou, ou estou (apesar de achar que ser lunática não seja um "estado de espírito"), volta e meia estou desenvolvendo teorias sobre mim. Flechas correm no ar levando com elas meus medos, minhas fraquezas, transições, opiniões e saudades. Antes delas há motivos e depois, consequências. As consequências dos meus receios são uma espécie de jogo de azar, como se a probabilidade de acabar em vantagem fosse de fato pequena, ou quase nula. Mas de certa forma, gosto de ver minhas opiniões mudando de consistência, virando imagens que eu nunca pensaria que virassem.
Na maioria das teorias me recuso acreditar qu'eu sou tanto amor, mas não adianta contradizer o que o coração grita. Qual a porcentagem de amor que existem num ser humano? Sinceramente, dentro de mim existe muito mais. Particularmente, tenho uma capacidade incomparável de dedicar um amor imenso por alguns corações. Nas minhas teorias, as conclusões machucam.
Na maioria das vezes, emaranhados de amor e medo me impedem de enxergar. Breu. Breu porque nem sempre os outros corações têm dentro deles o mesmo amor pra me oferecer. Insuportável.



sexta-feira, 25 de março de 2011

"Um ponto oito"

Postado por Djessyka às 21:25 5 comentários
Não havia necessidade de acelerar porque eu não estava atrasada, mas não havia sinal de outro carro na estrada além do meu, então, acelerei o que pude. Meus pensamentos estavam a mil desde a noite passada. Conforme os pensamentos iam pesando sobre minha cabeça, eu acelerava. Daquela maneira eu atravessaria cidades. A velocidade me mantia acordada naquela hora da madrugada, e já era segunda-feira. Meros mortais dormiam suas horas de sono enquanto eu queria continuar acordada no rumo de um pensamento que me fazia acelerar. Eu não queria cair no sono, era roubada, e se o fizesse, eu iria interromper pensamentos pra com eles me encontrar no dia seguinte. Então, na minha tolice, eu queria acabar de pensá-los hoje mesmo, e tirar de mim o fardo que não me deixava parar de acelerar.

Resolvi diminuir. E aí um estrondo horroroso. Depois a queda. Estrondo, queda, asfalto. Hove desordem dentro de mim: Queda, asfalto, estrondo, estrondo, queda. O som queimou meus ouvidos. Acho que matei alguém.

A luz do poste iluminava um corpo como holofotes iluminam a protagonista de uma peça de teatro. A mulher, em seus últimos instantes de vida, notou que eu estava ali, ao mesmo tempo notei a poça de sangue que se abria embaixo dela como se fosse uma passagem, a qual se abriria e levaria aquele corpo embora. Torci pra que isso acontecesse, não aconteceu. Lá estávamos nós: Eu e a pessoa que iria perder a vida em instantes por minha causa. Eramos agora dois sob o holofote protagonizando a cena pobre de platéia. O que havia eu de dizer, enquanto ela respirava? "Perdoe-me, eu não queria..." Quando tal frase me passou pela cabeça, confesso ter achado pouca graça em ter pensado com tal cinismo. É claro que não havia perdão, eu havia tirado-lhe a vida.
Tomei-lhe a mão suja de sangue e estava fria. Nada mais adiantaria, e então, assisti sua morte.
Saí pra juntar seus pertences que haviam sido lançados longe dela. Um chinelo, uma bolsa. Uma bolsa. Uma carteira, uma identidade. Resolvi saber o nome da mulher que eu havia tirado a vida, chamava-se Laura. Havia fotos na carteira. Crianças. E atrás da foto três por quatro da garotinha lia-se Luíza. Agora Luíza seria uma menininha de olhos inxados. Luíza iria me odiar até o último de seus dias.


Adeus, Laura.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Lá eu era amiga do rei.

Postado por Djessyka às 15:46 1 comentários
sem mais.

sábado, 12 de março de 2011

Arco-íris

Postado por Djessyka às 07:00 2 comentários
Na cidade daquela menina cantavam o que não se tinha,
construiam o que não se precisava,
Nomeavam o que não tinha nome,
colocaram mais três cores no arco-íris.

A menina achava que o que ela sentia, não precisava sentir.
Mas ela sentia, "dessentia", sentia.

Ela sentia ciúmes,
E viu que era tão ruim, que ao nomear,
Tirou do arco-íris três cores.

Se existe um sentimento frio,
a ponto de torturar tanto aquela menina,
Três cores deixaram de existir.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Amigos&agulhas

Postado por Djessyka às 17:55 3 comentários
Toda manhã eu tecia nas minhas agulhas alguns pontos que aos poucos tomavam a forma de um quadrado, posteriormente um retângulo e aumentava devagar. Na quinta-feira eu tecia durante tarde também. Eu não tinha prática com os pontos na agulha, mas com cuidado eu tentava não deixar que formassem nós. Um avesso, uma laçada, um avesso, uma laçada, e quando eu descuidava e voltava a olhar, via que entre meus avessos e laçadas havia um nó, uma falha. Eu podia muito bem continuar e deixar a falha, afinal, ela só iria aparecer pra quem olhasse de perto. Mas eu sempre tirava o pedaço de pano da agulha e desmanchava até chegar na falha, e depois, com cuidado, colocava de volta pelas laçadas já feitas. Eu nunca deixava minhas falhas descansando, eu voltava atrás, por mais que fossem pequenas, por mais que dessem trabalho pra desmanchar e tecer novamente as fileiras perdidas. Hoje eu vejo que meus pontos, que antes ficavam tão juntos e perfeitos estão desfiando. Um deles tive que desmanchar bastante, o suficiente pra alcançar o Rio Grande do Sul, e apesar da distância, ainda está preso ao meu retângulo, que fica cada vez menor. Talvez não solte. Outros estão quase arrebentando, eles voltam pra dar um nozinho, mas a lã não fica perfeita novamente, o nó fica aparecendo. Algumas já arrebentaram e eu não vou sair por aí tentando achar a outra ponta pra amarrar de volta. Uma delas não desmancha, bem, os avessos e as laçadas ainda estão perfeitos, exatamente da maneira que eu teci.





09/12/2013: O ponto perfeito arrebentou.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Pedaços

Postado por Djessyka às 05:58 5 comentários

E de todos os lugares qu'eu passei pra chegar até aqui, os que mais me chamaram atenção foram os qu'eu estava sozinha. Não pelo medo que senti, nem pela covarde qu'eu fui, mas sim pelas coisas qu'eu mudei. Não no mundo, porque ele é grande demais. Mas em mim. E tantas vezes tirei meu chapéu pra pessoas que me ensinaram a lutar contra os meus pavores, mas os pavores eram meus. Tão meus que tive que aprender sozinha. Tão sozinha que o chapéu ninguém tirou pra mim.
Meus medos têm um ar, e o ar do medo é ruim. Ruim só depois qu'eu o transformo em medo, porque ele entra puro dentro de mim. E eu devolvo o mesmo ar que eu coloco pra dentro, com os mesmos medos, as mesmas angústias, os mesmos amores... E depois de pouco tempo, quando volta o ar puro, faço com que a pureza se transforme na mesma angústia, no mesmo medo, e aí, a transformação constante: Ar puro, angústia, ar puro, angústia, ar puro, angústia. Mais um passo, mais ar puro. E quando o medo vai perdendo a força, eu transformo o ar em alívio. O alívio é mais fácil, mais doce, mais leve. E já qu'eu continuo pendurando no varal meus momentos de solidão, digo que sorrir sozinha me faz bem, aí a vontade de dar passos é maior que a de ficar encolhida no mesmo lugar. Só lamento ser inegável meu medo constante do medo voltar.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Favourite Things.

Postado por Djessyka às 07:12 12 comentários

Gosto de ouvir o que as pessoas têm a dizer,
Gosto das atitudes das crianças,
Gosto da corda Sol do meu violão e daquela foto minha no 'Imagine' em Nova York. Gosto do som que faz a chaleira cheia quando bate no cantinho da pia, e também do barulho de pés correndo no molhado. Gosto de ver fotos dos meus amigos quando eram pequenos e gosto quando alguém joga video game comigo. Gosto do Ringo Starr e gosto quando meu pai toca Greensleeves.
Gosto daquela música que diz que há um lugar em que os problemas derretem como balas de limão. Gosto de ouvir 'eu te amo' e de desenhar arco-íris. Gosto do Cebolinha e de ver o sol nascer. Gosto da beira do mar, do cheiro de mel e de andar descalça na grama. Gosto do Chico Buarque e de quando alguém lê o que eu escrevo. Gosto de lápis de cor, de comer morango, de abrir o coração, de tesouras que cortam engraçado. Gosto de sorrisos, de cumplicidade e de pacotes de presente. Gosto quando tô esperando alguém e a campainha toca, gosto de dar presente, de correr na chuva, gosto quando me elogiam, quando me defendem, quando me protegem, quando os lápis de cor caem da caixa e fazem aquele barulho engraçado. Gosto que me mostrem onde eu erro. Gosto da voz das pessoas que eu amo, do cheiro delas e de all star colorido.

E agora, as coisas que eu gosto já estão passando mais rápido pela minha cabeça, passando a uma velocidade que me impede de escrever.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dias atrás

Postado por Djessyka às 05:46 3 comentários

Prestei atenção quando Tom Jobim resolveu me dizer:
Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar

Eu já tinha dito coisas que não deveria,
Mas eu fechei os olhos e ele continuou:
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E aí, meu pai, eu me arrependi e chorei
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida

Mas eu sabia que tudo ia ficar bem
o mais rápido possível
eu fechei os olhos e Tom me disse:
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou

E agora eu tive certeza que as vezes a
vida nos faz dizer coisas que é melhor
que fiquem guardadas dentro da gente
A vida arma,
Eu caio.
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


Não importa o que eu disse,
Foi a vida que armou pra que eu dissesse
O que importa agora é te provar que

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida



 

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