Toda manhã eu tecia nas minhas agulhas alguns pontos que aos poucos tomavam a forma de um quadrado, posteriormente um retângulo e aumentava devagar. Na quinta-feira eu tecia durante tarde também. Eu não tinha prática com os pontos na agulha, mas com cuidado eu tentava não deixar que formassem nós. Um avesso, uma laçada, um avesso, uma laçada, e quando eu descuidava e voltava a olhar, via que entre meus avessos e laçadas havia um nó, uma falha. Eu podia muito bem continuar e deixar a falha, afinal, ela só iria aparecer pra quem olhasse de perto. Mas eu sempre tirava o pedaço de pano da agulha e desmanchava até chegar na falha, e depois, com cuidado, colocava de volta pelas laçadas já feitas. Eu nunca deixava minhas falhas descansando, eu voltava atrás, por mais que fossem pequenas, por mais que dessem trabalho pra desmanchar e tecer novamente as fileiras perdidas. Hoje eu vejo que meus pontos, que antes ficavam tão juntos e perfeitos estão desfiando. Um deles tive que desmanchar bastante, o suficiente pra alcançar o Rio Grande do Sul, e apesar da distância, ainda está preso ao meu retângulo, que fica cada vez menor. Talvez não solte. Outros estão quase arrebentando, eles voltam pra dar um nozinho, mas a lã não fica perfeita novamente, o nó fica aparecendo. Algumas já arrebentaram e eu não vou sair por aí tentando achar a outra ponta pra amarrar de volta. Uma delas não desmancha, bem, os avessos e as laçadas ainda estão perfeitos, exatamente da maneira que eu teci.
09/12/2013: O ponto perfeito arrebentou.





