segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Postado por Djessyka às 14:24 0 comentários



Outro dia (provavelmente você não lembre), voltamos no tempo.
Voltamos porque (não me pergunte como) ganhei o direito de realizar um pedido. Dentro desse direito surreal e quase Hollywoodiano, eu poderia ter pedido qualquer coisa: um rio de moedas de ouro que desaguasse incansavelmente dentro da cozinha da minha casa. Poderia ter pedido um ano invertido: feriados nos dias letivos, dias letivos nos feriados. Qualquer coisa.
Entre todas as coisas possíveis e impossíveis que passaram pela minha cabeça, escolhi a que eu sempre quis: Ser criança ao mesmo tempo que você. De qualquer forma, depois de rejeitar o rio de moedas, alguém do departamento de desejos impossíveis abriu essa exceção.
Foi mais ou menos assim que eu ganhei um dia inteiro pra ser criança ao mesmo tempo que você. Você não lembra, mas nós acordamos cada um com sete ou oito anos de idade e, neste dia, eu pude brincar suas brincadeiras e rir das piadas que você contava, mesmo que elas não tivessem a graça que você esperava. E nós corremos pela casa e fora dela, vimos os ninhos dos pássaros, juntamos joaninhas dentro do pote de maionese, recortamos papel e tomamos banho de chuva. E, pela primeira vez, simultaneamente crianças, pude ver você correr destrambelhado, ainda que eu soubesse que certas coisas nunca mudariam. Obviamente (e quase inevitavelmente) brigamos porque eu colei a figurinha número nove no lugar da sexta de ponta cabeça e, descolando, você ficou chateado comigo. Brigamos e fizemos as pazes umas três ou quatro vezes naquele dia. Gargalhamos por vezes incontáveis e nos conhecemos crianças por apenas uma vez.
Pensei que todo encanto acabaria cinderelamente meia noite, mas meu tempo terminou na hora que as crianças costumam dormir.

De repente, os dezessete anos que nos separam, voltaram. E, depois de ter adorado ser criança ao mesmo tempo que você, percebi que dezessete anos não separam efetivamente. Ainda brigamos e vemos os ninhos dos pássaros. Continuo rindo das suas piadas, ainda que tenham melhorado pouco ou quase nada.
Percebi que crescemos em tempos diferentes, mas orientados pelas mesmas mãos excelentes que nos mostraram o quanto importa o amor que temos um pelo outro.
E, sinto em lhe contar, mas você ainda corre destrambelhado, ainda que não com tanta frequência.

Amiga-Manacá

Postado por Djessyka às 14:22 0 comentários


Quando o despertador toca (às seis) acordo como a maioria das pessoas e nenhuma princesa. Existe um filme quase que inédito na minha cabeça, maquinando dentro de quantas horas posso voltar a dormir, ainda que seja inútil uma contagem regressiva.
Depois de perceber que o mundo continua (quase) intacto, que não nevou incessantemente durante a noite. Depois de perceber que não caiu no meu trajeto nem um meteoro sequer, que o asfalto não rachou ao meio formando uma imensa e profunda cratera alcançando o centro da terra. Depois de aceitar que a lava incandescente do globo terrestre continua exatamente no lugar onde deveria estar, é nesse momento, então, que eu me rendo: preciso levantar.
Depois de tentar encarar a vida (nem tão) de frente, ao menos uma coisa me deixa feliz logo no começo do dia: o pé de Manacá. Quase que meu. Encontro-me perdoando-o quando não está em sua época de florir: ele não tem culpa. Encontro-me elogiando-o quando está majestosamente florido. Encontro-me amando aquele amigo-pé-de-Manacá.
Meu amigo-pé-de-Manacá sempre quis me lembrar alguém, ele quase gritava mas eu, encantada, não ouvia. Felizmente, outro dia, quando já estava longe, consegui ouvir os gritos da árvore:
- Não percebe, menina, que ao nascer sou branco como nuvem e, à medida que passa o tempo, vou ficando colorido? Transformo-me como mágica de uma cor leve até colorir completamente. Conforme passa, a vida das minhas flores ganha tanta beleza que envelhece com uma cor completamente diferente da que nasceu.
Tinha toda razão o pé de Manacá: era ele, majestoso e presente, representando quem eu não poderia olhar com os olhos todos os dias. Representava aquela que nascera branca como nuvem, mas colore-se ao passar dos dias; que, de maneira tão literal, põe cor em seu próprio eu.
Tinha razão o pé de Manacá: era ele que, de tantas flores desabrochadas escondia as próprias folhas, da mesma maneira que brincam as crianças, escondendo-se. Da mesma maneira que brinca aquela menina destrambelhada, mesmo que já mulher, recusando-se levar a vida a sério demais.
Tinha razão o pé de Manacá: era ele que, de tanta beleza, fazia com que as pessoas apressadas diminuíssem o passo, e com que as menos apressadas parassem completamente só pra admirá-lo.
Sorte a minha ver todo dia o pé de Manacá que, quase que meu, lembra-me exatamente a menina que deve lembrar. E, depois que ouvi os gritos da árvore, tenho me confundido com frequência: já não sei mais quem é menina e quem é Manacá.
Postado por Djessyka às 14:18 0 comentários





Se um ano fosse uma pessoa, seria inquestionavelmente grande. Para cima, para os lados (até mesmo porque trezentos e sessenta e cinco dias não caberiam em qualquer modelo magricela). Seria lento e pesado em alguns momentos, mas ágil e doce em raros outros. Se um ano fosse uma pessoa, não abriria sorrisos pra qualquer um, muito menos entregaria flores. Não faria gentilezas nem brigadeiros. 


Foi aí que tal ano-pessoa viu tal Isadora nascer e se pegou ao nosso lado achando lindo como ela dormia. Depois que tal Isadora achou graça, de sorriso em sorriso o ano dançou, e gargalhou, e virou poesia. E, depois que Isadora bateu palmas, o ano virou festa e se encheu de balões de todas as cores. 
A menina, de tão doce, fez o ano sorrir sem mais parar até transformá-lo em jujubas e quindins, e gargalhava percebendo como tudo ficou lindo depois que ela chegou. 

E, depois que Isadora completou um ano, já havia tornado o ano tão feliz, que nem pensávamos em voltar ao ano-pessoa de trezentos e poucos dias atrás.
Postado por Djessyka às 14:17 0 comentários



Como pôde ter minha infância passado de forma como passam as horas de uma manhã de sábado? Eu não vi passar.

Mas você viu.

Viu porque me serviu incontáveis xícaras de chá imaginário em louça de plástico. E, sem entender, me pergunto como pôde ter sido tão imensamente doce o sabor daquele chá sem qualquer consistência, que tomávamos por horas a fio, por insistência minha.
Crescemos juntas: quando criança costumava pensar que você era criança também.
E, de toda sua paciência, restou-me uma criação tão excelente que me cabe agradecer. Foi mais que mera ensaiada educação: aprendi a ser sensível diante do turbilhão de incertezas de um mundo inconstante como este, aprendi a sentir a dor das pessoas que precisam de mim.
Não nos servimos mais chás imaginários em xícaras de plástico. Uma pena. Mas conviver com você continua tão doce quanto a infância que passou diante dos nossos olhos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Miguel translúcido

Postado por Djessyka às 18:51 0 comentários

Miguel não era bom, não era mau. Era só um garoto. Parecia comum, mas não era. Miguel era invisível.

Sobre ser invisível, acredito que devo explicações: Nós invisíveis somos mais ou menos felizes quando comparados às pessoas normais. Arrisco dizer que a maioria de nós, na maior parte do tempo, até gosta de ser invisível. Não posso dizer ao certo se existem graus de invisibilidade, mas tudo me leva a crer que sim. E, se de fato existir, o grau de invisibilidade de Miguel alcançava os mais altos valores de uma escala (ainda) desconhecida. Ninguém via Miguel, poucos o enxergavam, ninguém notava.
Faz algum tempo que Miguel descobriu que era assim, invisível. Na verdade, nós invisíveis acabamos descobrindo ainda com pouca idade.
As outras crianças não faziam questão de gostar de Miguel e vice-versa, e foi aí que ele começou a perceber que ninguém o via. Sua mãe perguntava, a professora perguntava. Começou, então, a gostar da invisibilidade.
Ainda criança, dono de uma maturidade invejável, Miguel passou a entender razoavelmente bem o porquê das coisas. A princípio, não entendia quando as outras crianças passavam por ele sem esboçar qualquer reação, chegou a chorar algumas vezes; mas notava que, quando levava em mãos algum brinquedo bastante interessante, as outras crianças se aproximavam. Antes sentia raiva, depois passou a entender: pobres crianças, viam apenas um brinquedo colorido flutuando, como em um comercial, quase que hipnotizante para alguém daquela idade. Viam o brinquedo deslizando no ar, mas não viam Miguel; já não cabia a ele culpá-las, eram muito novas, não entendiam sobre qualquer quadro (agudo ou crônico) de invisibilidade.
Por volta dos seus nove ou dez anos, Miguel se dava tão bem sendo invisível, que resolveu nem tentar reverter a situação. Qualquer espécie de Comandos Em Ação era o suficiente e o corredor era o melhor lugar pra se inventar qualquer história. Sentia-se tão orgulhoso quando acertava o pulo e criava uma história tão boa que só poderia ser terminada no outro dia, e, isenta de qualquer lição de moral. Ele não precisava disso. Nós invisíveis não precisamos.
Mas como seres humanos relativamente normais, os invisíveis também crescem, e enquanto crescem, não têm vontade de muita coisa, quem é invisível sabe.
 Apesar da pouca vontade, toda experiência que um invisível está prestes a ter, por menos radical que seja, tomam-se por um imenso e incontrolável frio na barriga. Invisíveis também não gostam de mudanças. Todos.

Nós não sabemos acelerar o carro sem comprar laranjas ou terminar as compras sem devolver a cesta no lugar. Nós sabemos nomes de flores e de pássaros. Ouvimos a mesma música inúmeras vezes no mesmo dia.
A nós invisíveis o que falta é a alma dos iluminados: a alma dos que desenham em suas paredes, montam bandas, nos falta a alma dos jovens efusivos, bronzeados, a alma dos que correm a favor do pôr do sol.
Só quem é invisível repara nessas coisas, nas pessoas que são vistas sem chuviscos ou sombras de televisões antigas.

Miguel cresceu assim, invisível. O que nem sempre foi de todo mal. Ao contrário da maioria das pessoas, o garoto Miguel não fazia nada pra mostrar para os outros, não queria a atenção de ninguém, não fazia sentido, já que ninguém o via. Ele fazia o que queria (mesmo nunca querendo muita coisa). E, mesmo deixando certo tom de indiferença, ele era dotado de turbilhões de sentimentos, até mais, muito mais que as pessoas normais. Como pode alguém invisível ter tanto sentimento dentro de si? Achava pouca graça.

Foi assim que acordei, semana passada ou retrasada, entendendo tudo sobre a invisibilidade do menino Miguel. Ele nasceu sem o concreto, o palpável, nasceu sem a consistência material dos fúteis. Miguel nasceu sentimento, esse que não se vê, sentimento este que não se veste, não se sente concretamente. Miguel não tinha o fosco do concreto, mas tinha o brilho dos sentimentos invisíveis. Por isso não era bom, nem mau. Sentia raiva (era repleto deste sentimento invisível), mas não socava a parede imediatamente por ser dotado de tanta sensatez (sentimento também muito invisível que preenchia Miguel), sabia que a parede reagiria com uma força contrária de mesma intensidade, e por isso não o fazia.

Sentimentos formam aproximadamente 90% de uma pessoa translúcida, mas existem outros motivos que nos tornam invisíveis, são eles: sonhos e segredos.
Sonhar ajuda na invisibilidade, remove do concreto. Pessoas normais sabem muito disso, afinal pessoas normais também sonham, e, quando sonham, ficam invisíveis por alguns (poucos) minutos. Elas sonham e se desprendem ao fazê-lo, mas retornam a seu estado normal (coisa que nós, invisíveis, não fazemos questão). O invisível sonha constantemente: sonha em tirar os sapatos no fim da tarde, sonha em ver uma nuvem em um formato interessante, sonha em andar numa rua florida... Carregamos todos os sonhos, todo o tempo, como se fossem verdadeiras bagagens. Sonhos são invisíveis e preenchem mais ou menos 6% da casca de um translúcido.
E, por fim, os segredos. Pessoas normais também têm segredos mas, comprovadamente, os segredos das pessoas normais têm cores, muitas cores. Há pessoas que possuem segredos negros, outras possuem segredos em tons de ciano; os que eu mais gosto são os segredinhos de crianças, são amarelinhos, (as crianças que não são invisíveis são geralmente amarelinhas). Mas os segredos das pessoas translúcidas não têm cor e eu posso explicar: nossos segredos são irrelevantes demais para assumir qualquer cor. Ganhamos sorrisos nas ruas e guardamos em segredo. Treinamos uma música no violão e guardamos em segredo. Esses não merecem cores... Compõem aproximadamente 4% da casca dos translúcidos.


É este o grande motivo da nossa invisibilidade: pouca consistência, muito sentimento. Todos somos uma casca, preenchida com as cores que mais convém. Quanto mais sentimentos,  mais translúcidas as cores, até que desapareçam por completo (no nosso caso).
É engraçado ver o mundo assim, de fora. É como se ele rodasse sem os invisíveis; ele também giraria bem sem alguém normal, mas nós invisíveis, carregamos essa certeza conosco.
Não acredito que Miguel queira sair da invisibilidade, quase nenhum invisível quer. É uma boa zona de conforto.
Ontem eu o vi, não sei exatamente porquê, nas teorias que venho desenvolvendo, invisível não deveria enxergar invisível. Devem haver erros.
Já que algumas pessoas podem enxergar estes translúcidos, melhor ficarem atentos: ver um invisível pode ser perigoso; ferir os sentimentos de algum deles pode ser um grande risco, assim como estragar-lhe um sonho ou descobrir seus segredos, afinal, sentimentos sonhos e segredos são as únicas coisas de que um translúcido é feito.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Postado por Djessyka às 15:09 1 comentários
Às Palavras

A própria língua discorre sobre qualquer assunto, qualquer um. É assim, cada palavra fixa no seu lugar, colada, pregada, séria, carrancuda. Por ora, faz pequena diferença se está grafada correta, ou incorretamente. Talvez ache pouca graça em um erro ortográfico quase "infazível", mas passe batido um erro de concordância nominal e continue igualmente arrogante. Vou provar que não são tão sérias quanto parecem: O que realmente acontece quando você vira as costas, é que as palavras começam a tremer até sacudir o caderno, ou a tela do computador, e pulam. Todas pra fora da folha, umas caem espatifadas no chão, outras correm. Ou tentam. Mas, quando você torna a olhar, todas já se dispuseram em seus lugares e se realinharam exatamente na forma que você as deixou. Salvo algumas preposições que, por serem muito repetidas, trocam de lugar, mas você não percebe.
Se as palavras fazem isso no papel, assim, espertas, imagina o que fazem na mente. Uma vez que todas as palavras que você conhece estão presas na sua mente, é tudo uma algazarra. Correm, pulam, dançam, rodopiam. E você, pobre você, senta no silêncio do escritório pra escrever um relatório qualquer, sem saber da festa de palavras que sua mente tem que suportar.
Primeiro, quando você vai começar um texto e isso se torna impossível, é porque as palavras dão-se as mãos, seguram-se muito, muito forte umas nas outras e não deixam com que apenas duas ou três te entreguem um bom início. Ouso dizer que tiram algum sarro da sua cara quando você leva a mão à testa para forçar-se a escrever.
Finalmente, quando você começa a escrever, lhe foge a palavra perfeita para o contexto. Aí sim, aí você percebe que elas têm vida própria. Ela corre a sua volta, dribla você, e você não consegue capturá-la (aliás, demorei um pouco pra conseguir lembrar do verbo "capturar", me fugiu à mente). Ela ri. Quando você lembra, de uma vez por todas, escreve rápido. Por mais que ainda não seja a hora exata de utilizá-la, você escreve no canto da página pra lembrar depois. Algema a pobrezinha. Ela dança quando você vira as costas pra tomar um café, faz caretas como se menosprezasse sua presença, mas torna a algemar-se uma vez que foi escrita.
Algemadas, são sérias, mas não pense que ficam assim cem por cento do tempo. Basta você virar as costas. Em verdade, a maior alegria de todas as palavras é quando são abandonadas em um papel que nunca mais será encontrado: Pulam, saltam, estão livres! Mas, se você encontrar uma carta escrita há anos, guardada no fundo de um baú, estas palavras, já dispersas, correrão feito crianças pra que se disponham novamente em seus lugares de origem. Isenta de qualquer história de pescador, já percebi algumas preposições invertidas, mas as palavras não se mexem enquanto observo, elas nunca dariam o braço a torcer.
Digo com toda certeza que essa não é uma teoria, é um fato. Comprovado.
Como tudo nessa vida, ainda faltam alguns detalhes. Ainda não descobri se a palavra "perspicácia" foge mais rápido que a palavra "arrastar", por exemplo.
Vou prestar mais atenção. Mas, como disse, são só detalhes.
 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Postado por Djessyka às 11:24 0 comentários
E se o Mark Chapman tivesse poupado Lennon, e se o Hitler tivesse morrido ainda criança devido a um problema respiratório qualquer. E, se Einstein tivesse morrido ainda criança devido a um problema respiratório qualquer. E se ninguém tivesse escrito a música In My Life, e, se eu tivesse escrito a música In My Life. E se os protestos de junho não tivessem acontecido, e se os protestos de junho continuassem acontecendo. E se Rui Barbosa não tivesse mandado queimar os documentos da escravidão. E se o projeto da primeira bomba atômica tivesse sido queimado, e, se a boate de Santa Maria não tivesse queimado. E se meus pés fizessem menos calos, e se Jesse Owens tivesse calos em 36, e se Raul Seixas não tivesse tantos calos quando seu pai lhe dava 36. E se eu estalasse meus dedos com menos frequência, e se Beethoven tivesse estalado os dedos. E se Eva não tivesse oferecido a maçã, e se a maçã caísse na cabeça de alguém que não fosse Isaac Newton. E, se as crianças não crescessem tão rápido, e se o amor se espalhasse mais rápido, e se os namoros não terminassem tão rápido. E se soldado não tivesse família, e se só os soldados tivessem família, e se todos tivessem família. E se todos usassem suéteres iguais no inverno, e se todos fossem presos por usar suéteres iguais no inverno, e se todos estivessem agora presos em uma liberdade monstruosa mesmo sem ser inverno. E se as mães fossem eternas, e se a vida não for eterna. E se não existissem chutadores de carteiras, e, se não existissem chutadores de bola. E, se o Pelé fosse branco, e, se o Pelé não fosse. E se não existisse Smartfones, e se tivesse praia em Minas Gerais. E se eu fosse menos tímida, e, se Elvis Presley tivesse sido tímido. E, se todos os pais tivessem chaves de fenda, e, se todos os olhos tivessem brilho. E, se todas as crianças tivessem lápis-de-cor.

sábado, 12 de outubro de 2013

Eu e o Zepelim

Postado por Djessyka às 08:55 0 comentários
Sempre soube muito bem o que era um carro, desde criança. Alguém sempre tinha que puxar o freio de mão pra que ficasse parado, mesmo desligado. Também aprendi como era um avião, toda vez que ouvia da minha casa o som da aeronave.O navio já não tinha mais segredo pra mim. Mas ainda não sabia o que era um zepelim.
Já havia descoberto o significado de palavras estranhas demais. Já sabia o que era um xaxim, um vice-prefeito, um mouse, uma sílaba, um satélite, talvez. Mas ainda não sabia o que significava zepelim.
Teria sido a Fátima Bernardes que falou em Zepelim? Ela era tão séria, por que falaria essa palavra que rimava com pudim? Meu orgulho infantil me impediu de perguntar certa vez. Eu não tinha Google, pouco sabia sobre dicionários. Que criança tão estranha fui naquele dia, me privando do meu direito mais trivial de ser criança. Eu não perguntei o que era um zepelim. 
Minha incansável cabeça de criança me entregou a imagem do zepelim. Foi como se eu tivesse dito "quero essa imagem na minha mesa antes das quatro", ou algo parecido. Gostei do zepelim. Muito simpático. Ele era gordinho, muito baixo. Alguém que pode ser chamado de Bolinha. Por volta de seus nove anos de idade, usava uma camiseta listrada em verde e branco, mas não se importava com futebol. Era ruivo e muito engraçado. Seu prato preferido era pudim, comia pudim no café, no almoço e no jantar. Mesmo sendo citado no Jornal Nacional, não era nenhum criminoso. Acreditei que a senhora Bernardes falara seu nome porque ele havia criado algum tipo muito diferente de pudim.

Tive que dar adeus ao pobre Zepelim quando descobri que ele não era quem eu pensava ser. Acenei para o Maior Criador de Pudins que o mundo já teve. Vi que ele saía pelo portão preto da minha casa, pelo portão da minha mente. Ele saía triste, com os olhos colados no chão, ainda com a camiseta listrada suja de pudim. Nunca vou esquecer seus olhos, sei que ele me culpava. Uma hora ele teria que partir, eu não poderia ser criança pra sempre pra mantê-lo vivo até o fim dos meus dias.  Eu não deveria nunca ter descoberto o que era um zepelim. Eu matei Meu Zepelim.

Nesse dia eu odiei o zepelim. Tanto quanto a pobre Geni quando viu o comandante descer com dois mil canhões. Pobre Ferdinand, Eu não quis odiar sua Lindíssima invenção. Vou aprender a admirar o maravilhoso dirigível. Assim que eu, com meus próprios olhos, observar um voando no céu.

Sinceramente, preferia experimentar o pudim mais gostoso do mundo. Mesmo porque eu nunca vi um zepelim. Adeus, Zepelim.


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Bolhas no Pé (Rosa Maldívia)

Postado por Djessyka às 20:29 0 comentários
Ah, se você me dissesse assim:
"Eu volto se você trouxer uma rosa pra mim
Mas não qualquer rosa, eu quero aquela que
tem um só exemplar
Nasce nas Maldivas
Tão escondida
que nem o mais louco pode encontrar

Mas ela só nasce se,
Chover por três dias com calor de:
Nem mais nem menos que trinta graus.

E, ela só nasce se:
Um Homem com um grande bigode regar
E a moça com sete saias em volta dançar,
E banda de Rock'n roll, ali Samba tocar
E as solteiras da ilha, casamento arrumar."

Ah, Já perdi o primeiro avião,
Fiz um barquinho às pressas então,
Remei pelo Antlântico, E,
Maldívia rosa encontrei
Vem, que a tarde te faço um café,
E com mais de mil bolhas no pé
Te recebo com Duas em mãos.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Queria ser Maria

Postado por Djessyka às 07:51 0 comentários
Se um nome não tem rima,
Nem pobre, nem rica.
Faz da rima, milionária
Rimar o nome em poesia.

Não espero de um amor
Rimar meu nome em qualquer flor
Não faz rima... Nem pobre
Nome sem rima, pra qualquer amor.

Quase li o dicionário,
Sem querer pulei a página
Nela estavam as palavras
Dois vocábulos, três, ou mais.

Vem e conta só pra mim
Que tipo de Poesia
você escreveria
Se eu me chamasse Maria?

Quantas linhas só de amor
Renderia a folha em branco
Quantos versos eu teria
Se eu me chamasse Maria?

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Anjo Laura (Bertoni Zanchettin)

Postado por Djessyka às 20:49 0 comentários
De longe não se via exatamente o que estava acontecendo. Me contentava com o vulto muito branco. Aparentemente, via-se uma criança por trás de uma mesa, brincando com alguns brinquedos. A névoa era branca, porém densa, eu estava tendo dificuldades para caminhar sobre todas aquelas nuvens. Andar sobre imensas almofadas feitas de ar era muito novo pra mim, pouco conseguia me equilibrar. A sensação se assemelhava a uma caminhada sobre gigantes pacotes d'água, colocados sobre balões instáveis e escorregadios. Tinha a impressão de que cairia a qualquer momento. Meus passos tortos não me deixavam chegar até a criança, que continuava a manusear objetos qu'eu jamais conseguiria identificar naquela imensidão branca. Depois de  instantes observando a sombra da criança, notei que ela parou de manusear os brinquedos. Deitou a cabeça para o lado esquerdo, como se também começasse a me observar.

- Venha até aqui, ela disse.
Notando minha confusão e preocupada com minha instabilidade para caminhar, disse novamente:
- Não tenha medo, também fiquei preocupada na primeira vez, mas aprendi que as nuvens jamais nos deixariam cair. Não tenha medo, reforçou.
Com a coragem oferecida pela criança, levantei, ainda preocupada e arrisquei alguns passos.
- Não tenha medo- Reforçou. - Belo cabelo, tão longo- Disse com uma voz inexplicavelmente doce.
Ao ouvir o elogio, parei. Ela estava me vendo com completa nitidez, e eu, apenas via um vulto extremamente branco.
- Não consigo ver você com essa precisão- Eu disse.
- Mas que cabeça a minha, havia me esquecido sobre você!- Ouvi da criança- Era uma menina, pelo pouco que pude decifrar.
Segundos após a frase, a imensidão tomou uma cor muito clara e iluminada. Tons de amarelo misturavam-se com incríveis tons de azul e verde. Pude ver, de repente, árvores imensas brotando das mesmas nuvens que estavam bem abaixo dos meus pés. Um riacho passava à minha esquerda e, distante, porém visível, o arco íris mais encantador que já havia se formado diante dos meus olhos. Passei alguns instantes admirando aquela maravilha, misturando imagens, sons e sensações, tentando não perder nenhum detalhe da cena mais inimaginável que já havia presenciado. Pontos de luz acendiam e apagavam sobre nossas cabeças constantemente, quis perguntar porquê, mas estava deslumbrada demais. 

A criança parecia mais encantada com a minha reação do que com toda aquela maravilha. Ela soltava gargalhadas a cada flor que brotava do chão, mas sem tirar os olhos de mim. Agora eu enxergava a criança! Era linda! Pequena, com um ar extremamente infantil, e ao mesmo tempo um sorriso maduro e encantador. Pele branca, muito branca, com as maçãs do rosto tão rosadas e uma boca tão delicada quanto as flores que ainda desabrochavam à nossa volta. Os cabelos eram claros, muito claros. Era um tom louro que combinava perfeitamente com a pele da menina. A franja, extremamente reta, exatamente em cima das sobrancelhas. Fiquei confusa, uma vez que em meio a todo aquele Paraíso, ela não possuía asas. Era só uma menina. Não vestia uma roupa branca e comprida, apenas um vestido simples, cor de rosa, com mangas longas, pouco acima dos joelhos. O olhar doce ainda vigiava meus passos.
- Espero que possa me desculpar, esqueci que teríamos visitas hoje.- Disse a criança.
Apenas observei.
A menina então, veio até mim, andando pelas nuvens com uma desenvoltura impressionante, pegou minha mão, e com um sorriso indescritível, perguntou se poderia me ajudar. Aceitei sua ajuda e rimos um pouco com meus passos errados e indefinidos, mas em poucas horas, estávamos as duas correndo pelo Paraíso, pulando riachos, e nos divertindo com as águas que nos chegavam pelas canelas.

- Como se chama? -Perguntei.
- Laura- ouvi- Me chamo Laura.
- O que faz aqui, Laura?
- Faço o que gosto!
- Que tipo de brinquedos são aqueles que você brincava assim que cheguei?
- Não são brinquedos.
- O que são?
Sem dar atenção para minha pergunta final, Laura me puxou pela mão e, juntas, seguimos um belo caminho, contornado por tulipas avermelhadas, simetricamente dispostas. Os pontos de luz continuavam a piscar e as flores, surpreendentemente, continuavam a desabrochar. Distante, víamos alguns animais soltos: cães, cavalos, ovelhas...
- Tá vendo? São meus animais preferidos, ganhei todos assim que cheguei aqui. O cachorro branco, o maior, se chama Alfredo. E lá- Apontando- Lá é minha casa, vem cá!- Disse Laura.
Segui a menina, que abriu a porta. Sua casa era surpreendente. Havia flores por toda parte. Era branca, totalmente branca. Na entrada, os ramos contornavam a porta, com uma doçura que lembrava o próprio rosto da menina. As pequenas luzes piscavam até mesmo dentro de sua casa.
- Quem cuida de você, Laura?
- Deus- Respondeu.
- Onde Ele está? Não pudê vê-lo até agora- Falei desapontada.
- Ora, você está sendo injusta- Disse Laura- Olhe tudo a nossa volta. Veja as flores, o riacho, as árvores, os cães. Você viu aquele arco- íris, não viu? Viu aquelas cores? Viu os raios de sol que invadiram  tudo por aqui? Como você pode dizer que não viu Deus? Deus está em tudo isso, está dentro de você e de mim. Ele está cuidando da gente agora, você não sente? Foi por isso que Ele me trouxe pra cá. Precisava de mim.
Olhei a minha volta, prestei atenção nas cores, no riacho, nas árvores, nas flores e fechei os olhos por alguns instantes.
- Sinto só paz, Laura.
- O que você acha que é Deus?
- Paz?

Foi quando fomos surpreendidas por um grupo imenso de crianças, para meu espanto, nenhuma vestida de branco. Cada uma vestindo uma cor diferente, algumas com mais de uma cor. Laura abriu um sorriso lindo ao vê-los e disse com empolgação:
- Espera só um pouquinho? É hora de brincar. Eu quero brincar!
Sorri para a menina, aprovando seu pedido, ela agradeceu e se misturou às outras crianças. Sentei no degrau da porta de Laura e observei as crianças brincando: ora com os cães, ora correndo, ora se escondendo, cantando, chutando a água do riacho umas nas outras. De vez em quando, ela diminuía os passos, desacelerando, para ver se eu ainda estava lá, virava a cabeça e m'entrgava um sorriso encantador. Não sei  exatamente quanto tempo passei observando aquelas crianças, mas a cada sorriso, a cada gargalhada, eu sentia a paz que a menina havia me falado mais cedo.

Quando Laura voltou, estava ainda mais iluminada, as luzinhas piscavam incansavelmente a sua volta e as flores desabrochavam ainda mais. Eu estava curiosa, e resolvi perguntar:
- Laura, por que essas luzes piscam o tempo todo em volta de você?
- São as velas- Disse.
- Velas?
- As pessoas que me amaram muito, antes de eu precisar vir pra cá, agora acendem velas pra mim. Pra me iluminar. Cada vez que eles acendem, as luzes piscam. Ainda sou muito amada por lá.
- Então as flores... -Eu disse.
- As flores desabrocham por aqui, quando me deixam flores lá.- Sorriu ao olhar as violetas brotando. Vamos voltar lá? Quero te mostrar o que eu faço!
- Com aqueles brinquedos?- Perguntei
- Vem comigo- Ouvi.
Eu já não precisava mais seguir a menina, pois já sabia a direção. Dessa vez, fomos lado a lado. No caminho, me perguntou se eu estava sentindo paz. Respondi positivamente.
Estávamos chegando na mesa! A mesma mesa que a vi somente em vulto "brincando", sem saber explicar exatamente o que era. Laura se posicionou atrás da mesa e disse:
- Vê? Corações!
- Corações? Perguntei espantada.

- Sim! Infelizmente, lá de onde a gente vem, muitas crianças precisam de corações novinhos pra continuar vivendo, mas não existe tantas pessoas assim para doá-los. Assim, preciso escolher as crianças que vão receber o coração. É uma tarefa muito difícil porque tem famílias que comemoram, mas outras podem chorar. Olha só, este coração,está novinho! Mas existe bem mais de uma criança esperando por ele. É isso que eu faço! Ajudo as crianças a receberem corações. Não pude receber meu coração novinho enquanto estava lá.
- Por que não recebeu?
- Precisavam de mim aqui.
- Quem cuidava de você lá?
- Meus pais. Eles sentem minha falta.
- Você sente falta deles?
- Sinto. Mas quando eu menos esperar eles vão aparecer por aqui.
- Existe algo que te entristece? - Perguntei.
- Infelizmente, em meio a todo esse Paraíso uma coisa me entristece.
- O que, Laura?
- Os inconformados.
- Inconformados...?
- Sim, existem pessoas que não me permitem realizar minhas missões com tranquilidade porque não se conformam. - Disse a menina sem perder a doçura.- E continuou: - Ficam lamentando porque não consegui meu coração novinho. Lamentam demais porque mães não quiseram oferecer-me os corações de seus filhos por manterem em seu leito a esperança da recuperação em uma quase morte. O que elas não entendem é que foi Deus quem me chamou, pois precisava de mim. Ele queria que eu ajudasse as crianças a receber os corações. Não gostaria que este tipo de lamentação existisse.
- Mas a doação de órgãos é essencial, Laura, se alguém tivesse tomado consciência disso antes de você...
- Não!- Disse Laura, me interrompendo- Não havia coração novinho pra mim porque Deus e as crianças precisavam de mim! A cultura e os costumes não podem ser feridos. Mas a principal missão deixei nas mãos dos que me amavam. Eles estão trabalhando na divulgação sobre a doação de órgãos: Eles fazem o trabalho deles lá, e eu, o meu, aqui. Mesmo com a separação que tivemos que aceitar, Deus me deu esta função para proporcionar que continuássemos trabalhando juntos! Percebe?
- Então você gosta daqui!
- Muito. Gosto de aparecer para as crianças durante a cirurgia. Passo horas brincando com elas para que se distraiam, sabia? Elas ficam assustadas com minhas asas no início, mas depois brincamos por horas até que se esqueçam que estão trocando de coração!
- Mas você não tem asas, Laura...
- Não tenho asas por aqui.. Mas  preciso delas quando apareço para brincar com as crianças de lá, enquanto dormem durante a cirurgia.
- Então você é um anjo!
- Anjo Laura!- Respondeu sorrindo.
Ao ver aquele sorriso inimaginável, ajoelhei diante da menina e abri meus braços. Sem pensar duas vezes, Laura me abraçou, com braços tão leves quanto os passarinhos que voavam sobre nossas cabeças, depois segurou minhas mãos e, sorrindo, disse:
- Já está escurecendo, estamos nos esquecendo, vem, vem comigo.
Juntas, fomos até a casa dela, entrei em seu quartinho dessa vez: A cama era extremamente branca, acompanhando todos o resto do quarto. Havia bonecas, ursinhos e quebra-cabeças. Não me contive e resolvi perguntar:
- Por que tantos brinquedos se você é um anjo, Laura?
- Sou criança também! Ganhei todos esses brinquedos, brinco com todos.
Não me surpreendi, afinal, a menina, apesar de angelical, era infantil, brincalhona e muito bem humorada.
Notei também seu guarda-roupas, fiquei curiosa para saber o que havia lá dentro, mas resolvi não perguntar dessa vez. Para minha sorte, a menina foi diretamente neste móvel e abriu, procurando algo. As roupas não eram vestidos longos e brancos, como havia imaginado. Havia curtos e longos, azuis, rosas, amarelos. Havia saias, blusas de manga curta, longa, até mesmo calças! Todas as roupas tão delicadas quanto o vestido que ela já estava usando. Laura pegou uma caixa branca de tamanho médio e esboçou um belo sorriso.
- Está aqui!- Disse.
Sem entender exatamente, fui atrás da pequena. Saímos de sua casa e começamos a caminhar por uma estrada bonita que, aparentemente, nos levaria a algum lugar que eu não conhecera até então. Apesar da minha curiosidade sobre o conteúdo da caixa, novamente não perguntei. Começava a escurecer enquanto ainda caminhávamos pela estrada. Ouvi da menina:
- Gosta de cantar?
- Gosto!- Eu disse, sorrindo.
- Canta pra mim?- Disse Laura.
Assustada com o pedido, sem saber que música exatamente eu poderia cantar naquele local tão celestial, perguntei:
- Que música você quer ouvir?
- Qualquer uma que tenha meu nome.
Estranhei. Ela queria uma música que contivesse seu nome, mas eu desconhecia.
- Não conheço nenhuma música que cite seu nome, Laura.
- Então faz uma pra mim?
Sem reação, pensei em algumas palavras e tentei colocar um ritmo, mesmo sabendo que jamais conseguiria descrever um anjo em palavras tão tortas e descombinantes. Mesmo assim, tentei, catando:
- Pra quem você tem um coração, Laura? 
Seu coração bate por todos,
mas nem para todos você pode mandar um coração...
Pra quem você tem um coração, Laura?

A menina, que parou de caminhar por alguns instantes, levantou a cabeça e tentou me olhar nos olhos. Percebi seu esforço e me abaixei para que conseguisse. Olhando bem pra mim, ela disse:
- Promete que vai terminar essa música? Termina ela pra mim? Promete?
- Prometo!- Eu disse convicta, com um grande sorriso.
Laura me abraçou com força e agradeceu. Seguimos pelo caminho cantando juntas a única estrofe que eu compusera pra ela. Sua voz era tão doce que me inspirava para continuar a poesia musicalizada.
Quando me dei conta, estávamos nos aproximando de um gramado imenso, quase sem fim. Um campo gigantesco, completamente aberto, com milhares de balões coloridos flutuando à meia altura, e cataventos ainda mais coloridos, espetados no chão, rodando com o fraco vento que batia. Resolvi olhar em volta e... Não éramos as únicas! Para minha surpresa, milhares e milhares de outras crianças se aproximavam lentamente do campo, com caixinhas idênticas à de Laura nas mãos. Em poucos instantes, o campo foi completamente tomado pelas crianças: Algumas maiores, outras bem pequenas. Meninas, meninos, Brancas, loiras, morenas, negras. Uma cena maravilhosa. Porém, mais incrível foi quando Laura me pediu para que ajoelhasse ao seu lado, para que ficássemos da mesma altura. Ajoelhei e abracei a menina pela cintura, esperando pelo que iria acontecer.
Com muita doçura, cada criança foi abrindo sua caixinha: Não em perfeita sintonia, algumas abriram um pouco antes, outras um pouco depois, e, a cada caixinha aberta, uma pequena estrela começava a levantar. Iam subindo lentamente, se distanciando das crianças até alcançar uma altura estável. A majestade daquele ocorrido fez com que Laura impedisse uma pequena lágrima  de escorrer em meu rosto. Anjo laura disse baixinho:

- Está sentindo Deus?
- Estou...- Eu disse- sem concluir a frase.
- Amanhã precisamos recolher as estrelas na caixinha.

Eu estava ansiosa para recolher a estrela quando acordei. Estava no meu próprio quarto. Fechei os olhos, tentei reencontrá-la sem sucesso. Tudo que eu via em minha mente era o rosto da menina. Sentia paz. 
Foi quando percebi qu'eu estava segurando um pedaço de papel. Eu segurava com força. Trouxe o papel para perto dos meus olhos recém acordados e para minha surpresa, era um bilhete. A letra totalmente infantil, dizia:


"Existem crianças especiais. Nascem diferentes das outras. Nascem dotadas de tamanha pureza e inocência que Deus prefere preservar. Deus prefere removê-las do mundo antes que tomem conhecimento de qualquer perversão do ser humano, antes que entendam até onde o homem pode ir em sua podridão de espírito. Deus as retira do mundo por serem estranha e imensuravelmente inocentes."




Que a sua luta não seja nunca esquecida.





domingo, 26 de maio de 2013

Agora sou Poeta

Postado por Djessyka às 16:37 0 comentários
Agora sou Poeta, sim, sou poeta, no sentido mais amplo e literal da Palavra, sou Poeta.

Não porque escrevo em degraus, não sou poeta porque estou aprendendo a usar métrica poética, e, particularmente, acho desgastante toda essa coisa de versos milimetrados.

Não, não sou poeta por isso. 

Não sou poeta porque sei usar paradoxo, também não sou poeta porque uso metáforas pra escrever história.
Não sou poeta porque aprendi a admirar a Lua e enxergar São Jorge em seus traços contínuos e tortuosos.
Não, não sou poeta porque os pés pueris correndo em piso molhado me soa musical.

Não, não sou poeta por isso.

Sou poeta, pelo motivo mais simples pelo qual se pode ser: 
Sou poeta, porque perdi um amor.

É assim, quem perde um pai vira órfão,
quem perde a lucidez, vira louco,
quem perde as lágrimas vira insensível,
quem perde o grande amor... Vira Poeta.

Foi assim, foi assim que dormi comum e acordei Poeta.

quinta-feira, 28 de março de 2013

poema em degraus

Postado por Djessyka às 07:36 0 comentários
Depois que você
sorriu
fiquei com
essa mania
bonita
de escrever
na vertical.
Poeta sei
que não sou
e essa pretensão 
nem tenho
mas depois 
que você sorriu
passei a transformar
palavras
em degraus
(agora sim)
com pretensão 
de chegar até 
você.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Postado por Djessyka às 07:52 0 comentários

De que adianta abastecer o carro agora? Cortar as unhas, tirar fotos. De que adianta agora dar banho no cachorro, adoçar o café, escovar os dentes pela manhã? De que adianta limpar os vidros, recarregar o celular. Pra quê comprar roupas, desamarrar os cadarços, lavar o carro. Não adianta mais. Não adianta mais. As crianças da casa se foram. Depois de apresentar sintomas de catapora e deixá-lo preocupado, como se fosse a doença mais mortal do mundo. Depois de ganhar seu primeiro biquíni para ir a praia, depois de sorrir com apenas um pequeno dente na boca e você achar graça. De que adianta agora pregar um quadro na parede se o seu garoto se foi? Pra quem você vai plantar flores no jardim? Por que plantá-las, afinal, se a menina que aprendeu sozinha a ficar em pé em seu berço, se foi? Sabe quem se foi? O garoto que  , como eu, colecionou cartinhas, que jogou Beyblade na escola. Se foi, a menina que, como eu, dançou na sala de casa. Pra quê encerar o chão? Não tem porquê. Suas crianças foram empilhadas no banheiro, suas crianças foram pisoteadas. Sua Ana, seu Vinícius, sua Amanda, sua Mariana, seu Rafael. Sofreram todos por não poder te avisar que iriam morrer.A vida não cuidou das suas crianças como você costumava cuidar. Sua Maria inalou fumaça até morrer, e, caída, recebeu pisões de outros. Alguns caíram por cima dela. Seu menino morreu no banheiro, de bruços. Sua criança se salvou! Mas achou que já era gente grande o suficiente, e voltou para o inferno para salvar os amigos. A culpa foi sua, você ensinou o valor da coragem e da amizade. As vidas que o seu moleque salvou antes de morrer eram mais valiosas que a dele? Duas por uma. Parece vantagem, não parece? Parece! Mas aquele era o Seu Menino. De que adianta revidar a fachada da casa? Se os cabelos louros da sua garota ainda estão presos na escova, não estão? De que adianta mexer nas gavetas que ela não gostava que você mexesse? Você descobriu agora, eram só as cartinhas dos primeiros namorados que ela guardava ali. De que adiantou descobrir? Não adiantou nada.


SANTA MARIA
27/01/2013

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Registrador de Nomes

Postado por Djessyka às 13:03 0 comentários
Existe uma figura que eu nunca soube ao certo quem é. Sei que é má. Se o nome do seu filho não correspondeu exatamente ao esperado, tenho certeza que a culpa é dele. Vive atrás de uma mesa de madeira escura, é completamente careca, usa uma roupa preta. Possui uma estante com livros enfileirados e cheios de pó em suas costas. Ele jamais ouve duas vezes, jamais é corrigido, e, finalmente, nada volúvel em todos os aspectos. Talvez seja um pouco surdo. Você não é capaz de identificá-lo em uma multidão comum, não sei exatamente por qual motivo, na verdade, acho que ele vive mesmo atrás da mesa de madeira brilhante. Mas o pior de tudo: o velho rabugento faz com que milhares de crianças sejam chamadas somente por um único nome até o último dia de suas vidas. Quem já teve filhos pôde conhecê-lo pessoalmente. Sinceramente, não me sinto preparada para conhecer essa figura tão assustadora. É ele. Muito pior que o "Homem do Saco", o "Homem das Neves" ou "Pé Grande" e terrivelmente pior que o "Ermitão". É o "Homem do Cartório". O Homem do Cartório é basicamente um ser estranho pra mim. Confuso talvez. Quantos nomes "eram pra ser" mas o Homem do Cartório não deixou? E o pior: Quantos nomes foram falados de forma errônea e o Homem do Cartório nem se quer sugeriu uma correção? Ouviu de forma surda e abafada e assim registrou o nome que a criança levaria por toda sua existência. Estou certa  de que na sua família alguém "era pra se chamar" mas o "Homem do Cartório" foi ineficiente. Mau. Ele foi mau. Ele ouviu e registrou. Ouviu e registrou. Ouviu e registrou. Ouvir, registrar. Ouvir. Registrar. Ouvir Registrar. Estou, na verdade, achando que o Homem do Cartório está cansado, afinal ele registrou seus bisavós, seus avós, seus pais... Alguns certos, outros errados, afinal, quem foi que criou essa profissão de Homem do Cartório? Acho mesmo é que cada um deveria registrar o nome do seu próprio filho, assim, em caso de erro, nenhum de nós poderíamos culpar o cansado e sozinho Homem.
Você já parou pra pensar que ele sabe o nome de todos nós? Se alguém, por acaso, chamar por você na rua e você não reconhecer nenhum rosto, tenho certeza que pode ser o Homem do Cartório, mas isso não acontece com frequência porque raramente ele sai de perto da sua estante de livros. Aliás, deve ser por isso que o chamamos Homem do Cartório: ele registrou todos nós, mas quem o registraria? Não havia ninguém lá para registrá-lo? Ele não pode registrar a si mesmo? Justo ele, que conhece tantos nomes bonitos, italianos, americanizados, curtos, compostos. Justo ele não pode ter um nome? Acho que por isso o pobre homem parece tão mau. Carrancudo, surdo. Rabugento. Ele faz com que cada um de nós tenha um nome próprio, e ele, sempre a registrar, só pôde ser chamado de Homem do Cartório.

A História de Kimy

Postado por Djessyka às 12:58 0 comentários

Era um lagarto colorido. Akemi rodopiava pelas salas transformando clientes em crianças curiosas. Era o verdadeiro lagarto colorido e sua criança. Kimy, como era chamada pelo pai, transformava dores de cabeça, dores nas costas, problemas  estomacais, renais e feridas abertas em curiosidade. Mesmo nascendo com a visão completamente prejudicada, Kimy conhecia cada pedaço das salas de acupuntura do pai e tinha um mapa perfeitamente desenhado em sua cabeça. Pelas macas, contornava com um desenho perfeito de suas mãozinhas e sentava em um espaço qualquer para espiar quem chegasse. Kimy espiava com os ouvidos. Ouvia vozes magras, gordas, bonitas, extravagantes e, de acordo com o timbre, a menina puxava um assunto diferente. Havia o senhor meio perturbado com um zunido frequente no ouvido para quem Akemi contava suas travessuras. A menina sentia o senhor esboçando sorrisos mas continuava a contar peripécias até ouvir um balbucio de risada bem definido, então saia correndo se esconder. Imprevisível como um lagarto colorido diante de uma criança.
Era incrível aos olhos da menina o quanto as pessoas pareciam melhorar quando ela contava-lhes uma história qualquer.
A mulher que sempre trazia chocolates tinha a voz tão doce quanto os mesmos. Quando a pequena Kimy ouvia sua voz, saía em disparada. Tinha a senhora com a voz tão engraçada que a menina imaginava sua casa cheia de cachorros, mas nunca perguntou se ela realmente os tinha, a resposta poderia ser negativa e Kimy poderia se decepcionar. As crianças doentinhas chegavam de vez em quando e, por estas, Kimy tinha um carinho especial: apoiava os bracinhos magros na maca, oferecia sua mão, e, em poucos segundos, sentia outra mãozinha na sua. Ela sabia que nem todas as crianças tinham tanta afinidade por agulhas como ela, afinal, quando a menina adoecia, o pai espetava-lhe agulhas e ela, com dor, sorria, pois o pai já havia lhe contado como as pessoas pareciam verdadeiros porcos-espinhos naquele momento.
Kimy esperava os dois melhores momentos do dia: as últimas agulhas tilintando na pequena bandeja. As agulhas tilintavam a todo momento. A cada cliente que ia embora, haviam agulhas a tilintar, pra você, pra mim e pra qualquer um que estivesse lá, os barulhos seriam exatamente iguais, mas jamais para Kimy, ela sabia exatamente quando a tilintada significava "almoço com o pai" e "hora de ir para casa". Sentia uma alegria quase inexplicável quando ouvia a última tilintada da manhã porque adorava sentar à mesa com o pai, mostrando que já podia comer sozinha. Kimy sentia-se revigorada para voltar e conversar com seus amigos. Ela sabia que sexta-fera encontraria a senhora Keiko, que iria lhe contar sobre seus netinhos.
Mas a melhor hora era a última tilintada. Quando as últimas agulhas tilintavam na bandeja, Kimy ajudava o pai com os lençóis e toalhas, e subiam os dois para casa e conversavam como dois adultos, brincavam como duas crianças, Kimy fazia de conta que espetava agulhas no pai, e estavam sempre os dois, sozinhos e sempre juntos, juntos sozinhos, pai e filha como se fossem um só.
Como fazia uma vez por semana, o pai de Kimy deixou a menina na casa da avó para limpar seu estabelecimento. Como sempre, comprou o doce de frutas preferido de Kimy, e, de trem, deixou a menina com a avó para realizar a limpeza. Kimy vestia sua melhor saia de pregas e limpava seus sapatinhos para a visita semanal. Levava um livro de histórias em baixo do braço para que a avó lesse um bom conto de fadas, afinal, Kimy contava histórias durante toda a semana, então, neste dia, gostava de adormecer ouvindo a voz da avó. A avó era brilhante ao descrever as figuras dos livros para Kimy, ninguém poderia explicar melhor como eram as nuvens, o céu, a Lua, as estrelas, e até as cores. Neste dia, a pequena Akemi só sentia falta de uma coisa: O tilintar das agulhas que a acalmavam e a colocavam em um estado de ânimo indescritível. Mas ela sabia que no dia seguinte, ouviria aquele tilintar, sabendo que ali estaria o pai, pronto para dedicar-lhe tempo.

***

Completamente destruído, o estabelecimento do pai, juntamente com a casa dos dois, levou o melhor amigo da menina. Foi a bomba. Kimy ouviu a avó falar baixinho. Ela não sabia, mas era 6 de agosto de 1945 e nunca mais voltaria a ouvir o tilintar das agulhas na bandeja. Se quer sabia se seus amigos doentes ainda estavam vivos. Se quer sabia onde morava agora. Akemi não conseguia lembrar do som das agulhas e por isso chorou. Estava agora cega dos ouvidos. O único lugar que ela conhecia exatamente como a palma de sua mão fora destruído por uma única bomba. Agora, e só agora sentiu-se cega de verdade. Agora, e somente agora sentiu-se sozinha de verdade.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Poema Infinito.

Postado por Djessyka às 14:07 0 comentários
Quisera eu saber escrever
Uma poesia de Amor,

Mas não qualquer
Poesia de Amor.

Uma que fosse composta com quantas linhas tantas é composto
.                                                                                 [o infinito.

Assim como tem um amor seu auge em uma Poesia,
passaria quantos infinitos fossem lendo uma mera linda estrofe
Não tão bonita quanto os olhos que a ela ouvem.

Porque os olhos ouvem.

porque os olhos só ouvem quando os sentidos se embaralham na
.                                       [plenitude de uma ameaça de infinito.

E se,
Minha poesia sem fim fosse,
Não haveria eu ter que perder um amor assim,

Infinito.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Linhas para teus Olhos

Postado por Djessyka às 16:39 0 comentários


Meu pensamento de menina segurava-se em uma fina corda, cambaleando da embriaguez proveniente de uma beleza já admirada, tentava não prestar atenção em tamanha delicadeza. E rodava em torno de uma pele branca nunca vista de tal maneira. Enquanto isso, a corda reduzia-se a fino barbante de pouca tensão, e possivelmente eu cairia. Neste exato momento em que meu coração batia aceleradamente apaixonado, você olhou-me ao falar. A corda não arrebentou. Eu soltei-a. Soltei o fino barbante de pouca tensão porque eu de fato quis cair, só pra ver onde eu iria parar. Notei que caía diretamente dentro do maravilhoso castanho dos teus olhos, e eles me remetiam a uma cena que só não beirava a perfeição por estar completamente inserida nela. 
Eu já estava dentro dos seus olhos castanhos quando meu amor foi completamente entregue. Meu amor segurou suas mãos como nunca houvera segurado outras. Não era posse porque quis ceder a mim como retribuição da oportunidade de viver aquele momento. Foi a
 partir daquele momento que eu passei a viver dentro dos teus olhos.
 

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